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O que você quer ser 
quando vencer?
Brasília, Junho de 2020
ENTENDENDO DIREITO  |  Com Patricia Garrote, Escritora e Advogada (OAB-DF 28400) 

Sonhos, planos, metas e pensamentos gritando alto na sua cabeça e você acreditando que o grande dia vai chegar e tudo aquilo que tanto desejou ter será, enfim, realidade. Você vem ralando, sacrificando o seu sono, a sua alimentação, a saúde, a juventude, o seu relacionamento com o parceiro, a família e os filhos em prol de algo maior do que você mesmo e de sua capacidade de compreender o tamanho da importância de conquistar esse objetivo – e aprendeu a achar isso absolutamente normal.


Não viu os filhos crescerem, não participou de nenhuma festinha da escola, perdeu a intimidade com a família, só chega em casa distraído e mau humorado, impaciente e atrasado pra tudo. Reuniões, almoços e mais reuniões depois do jantar em que pouco ou nada viu do que se tratava. Sexo ruim, vida que segue, olhadinhas maliciosas e happy hours atestando que pular cerca também ficou normal, o parceiro esperando em casa se transformou no lugar-comum e, de novo, vida que segue.


O relógio não marca mais as horas, mas o tempo perdido e tudo que deveria ter sido feito e não foi e o mau humor aumenta e afasta quem deveria acolher e ser acolhido; quem ama fica esquecido e quem é amado não existe mais porque para amar tem de ter tempo e você não sabe mais o que é tempo positivo, está sempre no negativo. E eis que o dia é hoje: você rodeado de todos os bens móveis, imóveis e virtuais que tanto imaginou seus confirmando o que você já sabia, que todos os anos de sacrifício valeram (muito) a pena.


Seus filhos o olham com desdém, mas se aproveitam da fase de bonança, assim como todos ao seu redor e você acredita que isso é bom. O parceiro envelheceu esperando e não lhe parece mais tão atraente assim e, pior, vocês não falam mais a mesma língua, não têm mais sonhos em comum, só o seu, que já virou realidade. A família se divide entre os que o admiram e os que o invejam, assim como os amigos e os nem tão amigos assim. Os olhares maliciosos buscam novas aventuras e os carros importados e a lancha recém comprada se prestam a abrigar encontros furtivos, champanhe e risadas rasas e nada convincentes de quem só está ali por conveniência. Filhos nas drogas, com parceiros abusivos, o fazem lembrar que nem tudo o dinheiro compra, mas você fecha os olhos: não há o que fazer. A nova vida é embriagante e você se esquece de quem era quando começou.


Você acorda, olha para o lado, se lembra do motivo por trás dos seus sonhos e resolve planejar melhor o seu futuro, organizar o tempo para caber tudo que possui dentro dele. Quer manter o que é parte de sua vida hoje, amanhã e depois. Sorri e desce para fazer o café.

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