As mentiras que os
filhos contam 
Brasília, Novembro de 2020
Por Sueli Bravi Conte

O limite é uma experiência afetiva que atinge tanto pais quanto filhos. Ninguém sai ileso e muitas vezes é difícil mesmo dizer um “não”. Sentimos pena, hesitamos e, às vezes, acabamos cedendo. A criança percebe tudo, inclusive nossa insegurança. Mas, nem por isso devemos deixar de impor limites. Frustrar é altamente saudável e, também, necessário para a constituição do ser humano. Ao mesmo tempo, a falta de limite é o pior estado de angústia. Ao estabelecer os limites é preciso sustentá-los com firmeza. 

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À primeira vista essas afirmações podem parecer duras, mas são a pura verdade. Se você, pai ou mãe, concorda com as afirmativas acima, então está no caminho certo na tarefa de colocar limites nos filhos e possibilitar que eles respondam pelos próprios erros e comecem, assim, a construir sua autonomia. 

 

Não existe uma receita pronta que mostre como criar e educar os filhos. Atualmente é mais difícil do que parece. Precisamos saber que toda autoridade é construída pela palavra e é por meio dela que construímos as regras junto com os pequenos. Se eles são informados a respeito, é legítimo cobrá-los e exigir que as regras sejam respeitadas. Afinal, todo limite que você coloca para seu filho é para o bem dele e seu também. 

 

Em meio a tudo isso, há um processo que dificulta o respeito às regras: são as mentiras. Os pais ficam de cabelo em pé quando percebem que o filho está mentindo. A primeira reação é dar bronca, colocar de castigo e depois tentar uma conversa. Mas, qual seria a melhor reação dos pais quando descobrem uma mentira contada pelo filho? 

 

De início devemos saber que crianças de até cinco anos de idade não conseguem separar a fantasia do real. A imaginação faz parte do desenvolvimento normal da criança e é base para o pensamento lógico que o adulto tem. Com o passar dos anos, porém, a fantasia dá lugar à noção de realidade, sem desaparecer totalmente. 

 

Mesmo que a criança, desde pequena, ainda não saiba diferenciar a fantasia do real, os pais devem lhe mostrar o que é mentira e o que é fantasia. Se a criança na fase pré-escolar traz um material didático estranho e diz que a amiguinha lhe deu de presente, confirme se a história é mesmo real. Se não, diga à criança que aquilo não é seu e que não lhe foi dado, fazendo-a devolver para a colega. A criança inventou uma história, mas ainda não sabe distinguir o real da fantasia. Assim, a verdade precisa ser mostrada de maneira orientativa. 

 

Outro aspecto que precisa ser observado é que o exemplo dos pais pode levar as crianças a mentir. Se os pais mentem pedindo para o filho dizer que não está quando o telefone toca ou são tolerantes quando o pequeno mente, a criança poderá achar natural mentir e fica sujeito a fazê-lo. 

 

Broncas severas ou castigos podem levar a criança a mentir mais vezes para não receber novamente esse tipo de punição. Mostrar os benefícios da verdade e os prejuízos que a mentira traz para a própria criança e para as outras pessoas é o melhor caminho. Quando o comportamento mentiroso é muito frequente ou se estende muito além dos sete anos, uma ajuda profissional deverá ser procurada. 

 

Portanto, atenção pais para as pequenas mentiras que, com o tempo, poderão ganhar proporções que dificultem uma vida de convivências saudáveis. 

* Sueli Bravi Conte é especialista em educação, mestre em neurociências, psicopedagoga, diretora e mantenedora do Colégio Renovação, instituição com mais de 35 anos de atividades do Ensino Infantil ao Médio, com unidades nas cidades de São Paulo e Indaiatuba.

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